- Eu já falei pra você dirigir mais devagar.
- Ana, eu não tô dirigindo muito rápido. E a estrada está vazia. Não
têm nenhum carro atrás de nós e nem na frente, então acho que não faz
mal que eu dirija a essa velocidade.
- Você tá alterado. Você bebeu e tá estressado. Sua mãe morreu semana
passada, eu sei que ainda dói dentro de você. É normal que doa. Mas
você não precisa ficar dirigindo feito um louco por aí.
- Eu tô bem.
- Ah, é claro que você está bem. Afinal, sua mãe morreu na semana
passada, estamos indo ver seu pai no hospital, porque ele sofreu um
infarte, você bebeu quase meia de vodka na festa que estávamos e estava
chorando há poucos minutos atrás. Sim, você realmente está muito bem.
- …
- Eu sei que não é fácil pra você. Eu sei que tudo aí dentro tá muito
confuso. Perdemos nosso filho há 2 anos, semana passada perdemos sua
mãe e agora você está com medo de perder o seu pai. Eu sei como é. Eu já
perdi meus pai, e perdi o nosso filho também. Então, eu te peço, se
acalma. Tira o pé desse acelerador, encosta o carro e deixa eu dirigir.
- Não, você dirige muito devagar, e nós precisamos chegar logo. Você sabe o estado do meu pai. Ele não tem muito tempo.
- Eu sei que ele não tem muito tempo, e é por isso que eu quero
dirigir. Se você continuar nessa velocidade não chegaremos até o
hospital.
- O que você quer dizer com isso?
- Tô querendo te dizer que se você continuar dirigindo tão rápido assim, vamos acabar sofrendo um acidente.
- Hahahaha, que piada. Eu sou um ótimo motorista!
- Meu Deus, para de ser infantil e encosta logo esse carro. Não quero morrer, pelo menos não hoje.
- Deixa de ser idiota, logo nós chegamos na cidade do meu pai e vamos direto para o hospital.
- Amor, olha pra mim. Eu tô bem. Aquela garrafa de vodka nem efeito
fez em mim. Olha, eu tô bem. Olha só, até tiro as mãos do volante pra
dirigir.
E foi esse o meu erro. Por que é que eu tive a insana ideia de soltar
o volante? No mesmo instante em que soltei, o carro passou por um
buraco. Tentei recuperar o controle do carro, mas já era tarde. Devido a
alta velocidade e o buraco ser muito grande, o carro perdeu o controle.
Não havia acostamento na estrada, o que fez com que o carro batesse de
frente em uma árvore. Bati minha cabeça no volante, o que me rendeu uma
forte tontura. Olhei para o lado e não vi Ana alí, a porta do lado dela
estava aberta. Saí do carro e vi que ela havia sido arremessada para
fora. Corri em sua direção, sentei ao seu lado e coloquei sua cabeça em
meu colo.
- Amor, me desculpa. Olha a burrada que eu fiz. Amor, acorda!
Não havia resposta dela. Ela estava desmaiada. Peguei seu pulso e
senti que ainda havia pulsação alí. Estava fraca, mas ainda havia.
- Amor…
Chamei mais uma vez. Senti ela se mexendo, então ela abriu os olhos.
Tentei ajeita-la e ao colocar a mão em sua barriga senti algo áspero e
cortante. Erguia sua camisa e vi o que havia ali: um pedaço de caco de
vidro. O pedaço era grande e havia perfurado fundo. Tirei o caco e senti
que ela estava respirando pesadamente. Foi então que percebi o que
havia acontecido: o caco havia perfurado o seu pulmão. E o pior, não
havia como salvá-la. Estávamos há 1 hora e meia da cidade, sem carro,
sem área de cobertura para fazer alguma ligação, em uma estrada deserta e
sem tempo algum.
- Matheus… - Ouvi-a balbuciar.
- Não faça esforço meu amor, tudo vai ficar bem. - Falei, mas já sabendo que nada ficaria bem.
Ela tentou me falar mais algumas coisas, mas eu não consegui entender
nada. Ela estava ficando cada vez mais fraca, assim como sua
respiração.
- Me desculpa. - Pedi a ela em meio as lágrimas.
Não ouvi resposta dela, apenas um aperto na minha mão. Entendi como
se fosse um sim. Então, sabendo que não haveria como salvá-la, arrumei
sua cabeça em meu colo, segurei firme a sua mão e comecei a chorar cada
vez mais. A culpa era minha. Eu havia bebido e dirigido feito um idiota.
Eu causara aquela morte. Eu matara o amor da minha vida. E por culpa
minha eu estava perdendo mais uma pessoa próxima de mim. Olhei em seus
olhos e vi que o brilho estava os deixando. Apertei sua mão e tentei
sorrir em meio as lágrimas e balbuciei um último “eu te amo”. Fitei
seus olhos, beijei-a e fiquei aguardando até o momento em que a vida
deixasse o seu corpo. Mas um pensamento não sai da minha mente até hoje:
foi minha culpa.
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